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sábado, 23 de novembro de 2013

Carta a um Príncipe – Um diálogo com O Pequeno Príncipe, de Saint-Exupéry


À linda história de um principezinho que não sei de onde, talvez, de outro planeta, veio parar em minha vida.

 “... Levei muito tempo para compreender de onde viera”. É assim como as pessoas grandes comportam-se. Poucos sabem das coisas simples e leves, que movem o espírito e dão suavidade a alma, simplesmente não se importam, calam, abandonam, consentem.
Mas, para um pequeno principezinho, tão sensível e sábio perante as pequenas coisas de grandes significados, o mundo certamente não passara incólume às suas dúvidas, devaneios, filosofias, admirações: “- Então, tu também vens do céu! De que planeta és tu?”.
Sua ingenuidade ultrapassara os limites do entendimento dos homens que há tanto tempo habitam a terra. Ora, supor que um pequeno carneirinho, menor que seu reino, abrigar-se-ia numa caixa minúscula à noite, a qual serviria de casa, é atentar contra a racionalidade humana, ainda mais, relutando com tamanha convicção: “Não faz mal, é tão pequeno onde moro!”.
Falando assim, tão seguro de si, poderemos pensar que nosso amigo viera de um planeta minúsculo, que, diante da infinitude de tantos outros desconhecidos e maiores, ousaremos supor, com artimanhas de gente grande que "O planeta de onde ele vinha é o asteróide B 612". Só brincando com os números de uma maneira estranha e racional, é que se pode dar forma e sentido para uma explicação humana e adulta ou, talvez, ser um pouco como as pessoas grandes, que se encantam, emudecem e fantasiam com emaranhados de números sem nexo, mas que significam uma boa posição social e conquistas na vida adulta.
Carneirinhos, baobás, elefantes, pôr-do-sol! Cores, espetáculos e formas praticamente imperceptíveis ao olho humano, tão imerso em seus problemas. Quem ousaria, em bom tom, dizer: “Um dia eu vi o sol se pôr quarenta e três vezes!” Estas são palavras que exalam um sentimento maior de pureza e liberdade vilipendiadas. Mas um principezinho dissera outrora, e sabe por quê? Sua explicação é simples e demasiada complexa, pois, para ele, “quando a gente está triste demais, gosta do pôr-do-sol...”.
Há uma revelação maior entre nós, que é o fato de escondermos a nós próprios perante a vida e não indagamos sequer sobre a existência dos espinhos em nossas flores, tão mordazes, diante de tanto perfume! Mas se tiveres realmente a oportunidade de conheceres tua flor e amá-la saberás que: “Se alguém ama uma flor da qual só existe um exemplar em milhões e milhões de estrelas, isso basta para que seja feliz quando a contempla. Ele pensa: “Minha flor está lá, nalgum lugar...” Quem sabe ainda desconhecida, pronta para despertar, ainda que despenteada, mas com esmero no olhar e sem modéstia na fala, viesse afirmar que ”nascera ao mesmo tempo que o sol...”
Diante de tamanho encanto e da história mirabolante da flor, o principezinho sentiu a força maior do carinho e cuidado com que se deve tratar o bem amado, mesmo quando retrucou: "Não a devia ter escutado - confessou-me um dia - não se deve nunca escutar as flores. Basta olhá-las, aspirar o perfume. A minha embalsamava o planeta, mas eu não me contentava com isso”. Sabia o pequeno príncipe do bem maior que era tê-la por perto, ainda que não compreendesse seus atos e suas palavras contraditórias, mas, sentia que ela o perfumava e iluminava em seu pequeno planeta, porém, “devia ter-lhe adivinhado a ternura sob os seus pobres ardis. São tão contraditórias as flores!... era jovem demais para saber amar”.
A flor, porém, tinha um pouco de cada um de nós: orgulho, arrependimento, zelo e doçura, quando, nos momentos em que nos deixam mais saudade, desatamos friamente, a esconder nossa tristeza: “- Trata de ser feliz...” Quando por pura devoção e mimo, deveríamos soltar nosso ímpeto como se fossem as últimas palavras: “- Não demores assim, que é exasperante”. Ainda correríamos o risco que vissem nossas lágrimas.
O principezinho partiu e em sua empreitada, triste de saudade e melancolia, deparou-se com um reino muito pequeno, mas, cansado de tanto andar e não haver dormido ainda, bocejou na frente do rei e foi logo repreendido: “É contra a etiqueta bocejar na frente do rei... eu o proíbo”.De prontidão, o pequeno príncipe logo adiantou: “- Não posso evitá-lo... Fiz uma longa viagem e não dormi ainda...” Tanta autoridade soou, para o principezinho, a estranheza das pessoas grandes.
Sempre em frente, deparara-se com casos bizarros e estranhos dos humanos como a vaidade extremada, que, para ele, num reino solitário, não significava sentimentos ou honrarias maiores. Até um bêbado que encontrara em seu caminho chamou atenção pelo comportamento melancólico, tão comum ao principezinho em sua relação consigo mesmo, pois não via o sentido das pessoas agirem de tal maneira, em prol somente dos seus desejos. Mas achava-as extraordinárias com seus modos estranhos!
De planeta em planeta, o pequeno príncipe seguia seu caminho de descobertas e encontros com os diversos habitantes dos outros planetas, que lhes mostrava o quanto é trágico não perceber as coisas mais importantes da vida, como o simples ato de amar uma flor ou cuidar de uma única estrela e buscá-la no momento exato, ao longe, no firmamento.
Ao chegar a terra, logo percebeu que os variados tipos que encontrara em sua exploração não eram estranhos naquele lugar, mas, tão comuns, a ponto de entender cada vez mais as pessoas grandes - era assim como ele entendia os humanos!
“Mas ele era puro. Viera de uma estrela...” de tão alto e tão longe que mesmo a serpente não ousara devolvê-lo a terra, como fizera com muitos homens enlouquecidos de paixão e poder.
Seus passos, porém, seguia o perfume de uma flor que encontrou pelo caminho, e perguntara logo pelos homens, mas desde sempre soubera que estes não possuem raízes e quase sempre se acham correndo em algum lugar do planeta.
Mas lá estavam, num lindo jardim, diversas rosas, tão lindas quanto a que ele deixou - sua flor predileta, pela qual ele chorara, ainda que conhecendo sua vaidade extremada e seus truques para conseguir realizar seus desejos. Foi somente no meio delas que se sentiu extremamente infeliz. “Sua flor lhe havia contado que ela era a única de sua espécie em todo o universo. E eis que havia cinco mil, iguaizinhas, num só jardim!" Mas pudera ser a única em espécie a despertar mais profundamente a alma do principezinho!
Foi somente a raposa que deu o maior ensinamento sobre os laços entre os homens, quando pronunciou a palavra “cativar”, que tanto chamou a atenção do pequeno príncipe, ainda mais, quando explicou com um exemplo tão concreto: “Tu não és para mim senão um garoto inteiramente igual a cem mil outros garotos. E eu não tenho necessidade de ti. E tu não tens também necessidade de mim. Não passo a teus olhos de uma raposa igual a cem mil outras raposas. Mas, se tu me cativas, nós teremos necessidade um do outro. Serás para mim único no mundo. E eu serei para ti única no mundo...”
“Existe uma flor... eu creio que ela me cativou...” logo lembrou o principezinho com certo saudosismo e entusiasmo, pois logo entendera o significado da palavra cativar.
Ao perceber a magnitude da presença do principezinho em sua vida, logo a raposa pediu para ser cativada por ele, quando declarou sua necessidade e que, pelos passos dele seria chamada para fora da toca, “como se fosse música”, quando os outros passos lhe faziam entrar para debaixo da terra!
Insistentemente, explicara a ele sobre sua teoria: “a gente só conhece bem as coisas que cativou”. De forma bem humana, fê-lo entender o quanto é importante o amor, a amizade, cativar:
“- É preciso ser paciente, respondeu a raposa. Tu te sentarás primeiro um pouco longe de mim, assim, na relva. Eu te olharei com o canto do olho e tu não dirás nada. A linguagem é uma fonte de mal-entendidos. Mas, cada dia, te sentarás mais perto...”.
O ritual mágico do encontro se faz de presença e confiança, assim é a expressão grandiosa do ato de cativar! Assim como a raposa disse ao pequeno príncipe de coração tão grandioso, as palavras mais verdadeiras para expressar o quanto me cativastes, revelam o quanto sua presença é importante em minha vida. “Se tu vens, por exemplo, às quatro da tarde, desde as três eu começarei a ser feliz. Quanto mais a hora for chegando, mais eu me sentirei feliz. Às quatro horas, então, estarei inquieta e agitada: descobrirei o preço da felicidade! Mas se tu vens a qualquer momento, nunca saberei a hora de preparar o coração... É preciso ritos”.
Nessa dança louca de rituais, confrontamo-nos com um ritmo intenso e louco, que desatina e foge ao nosso controle: “É o que faz com que um dia seja diferente dos outros dias; uma hora, das outras horas”.
“Assim o principezinho cativou a raposa. Mas, quando chegou a hora da partida, a raposa disse:
- Ah!  Eu vou chorar.”
Mas logo acrescentou:
“- Vai rever as rosas. Tu compreenderás que a tua é a única no mundo. Tu voltarás para me dizer adeus, e eu te farei presente de um segredo”.
Ao voltar, tão desapontado com as rosas, escutou a revelação da raposa, que lhe serviria pela vida inteira: “Eis o meu segredo. É muito simples: só se vê bem com o coração. O essencial é invisível para os olhos”.
Nosso tempo é o alimento necessário para nos tornarmos responsáveis pelo que cativamos, ou seja, o outro! A raposa assim o expressou bem:
“- Foi o tempo que perdeste com tua rosa que fez tua rosa tão importante”.
O carinho, respeito e cuidado são as engrenagens que fazem esse truque correr no leito das fantasias, como o mais belo seio das deusas abraçado, fugir em direção ao infinito dos rios e dos mares. “- Os homens esqueceram essa verdade, disse a raposa. Mas tu não a deves esquecer. Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas. Tu és responsável pela rosa...”.
            A história é o que toca, paralisa, gela! "O que tanto me comove nesse príncipe adormecido é sua fidelidade a uma flor; é a imagem de uma rosa que brilha nele como a chama de uma lâmpada, mesmo quando dorme...”.
            Não me é estranho o fato de uma raposa sentir tanto a falta do principezinho, pois, a tristeza bate com a saudade, o riso ausente, a presença constante sem se estar aqui. “... A gente corre o risco de chorar um pouco quando se deixou cativar...”.
            Para isso, as surpresas existem! Podem estar por toda parte, em qualquer lugar, basta senti-las, ainda que sejam por lapsos de segundos ou presas em nossos pensamentos. Para ti, uma revelação de onde sempre estarei a te cuidar, a envolver-te com minha beleza e o sopro leve de nossos dias: “- Tu olharás, de noite, as estrelas... Minha estrela será então qualquer das estrelas. Gostarás de olhar todas elas... E depois, eu vou fazer-te um presente...”
As estrelas, porém são guias e possuem suas características e brilho próprio, o que distingue as pessoas importantes das menos importantes em nossas vidas. Eu, porém, considero-te a estrela de mais brilho, o anjo de mais luz! Entendi-o dessa maneira ao sentir o livre pensar de Saint-Exupéry:
“- As pessoas têm estrelas que não são as mesmas. Para uns, que viajam, as estrelas são guias. Para outros, elas não passam de pequenas luzes. Para outros, os sábios, são problemas. Para o meu negociante, eram ouro. Mas todas essas estrelas se calam. Tu, porém, terás estrelas como ninguém...”
Diante de tamanha felicidade, ao encontrar-me, saberás desde já que...Quando olhares o céu de noite, porque habitarei uma delas, porque numa delas estarei rindo, então será como se todas as estrelas te rissem! E tu terás estrelas que sabem rir!
É importante que te faças entendido quando olhares as estrelas, que te rias, que fales, nem que seja baixinho, para que eu, ao longe, mas em tua presença, responda-te e lhe dirija em meus pensamentos:
“-... Está bem. Tu verás onde começa, na areia, o sinal dos meus passos. Basta esperar-me. Estarei ali esta noite”.
Sempre presente como a luz de uma estrela, e ausente, escondida, para revelar o preço da saudade e o desejo do encontro, vou partir-te um pouco o coração com tal zelo exagerado... E quando te houveres consolado (a gente sempre se consola), tu te sentirás contente por me teres conhecido.
                                                                                                                             PATRÍCIA D.


PS.: TERIA ESCRITO À MÃO SE NÃO FOSSE A VONTADE INQUIETANTE DE ESCREVER-TE UM LIVRO EM ALGUMAS HORAS.
 


segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Um sentença no salão

Imagem: Woman fastening her garter, Edouard Manet, 1878


Ele parecia sufocado de tanto suor, nem sabia como se comportar diante do que não soubera explicar. Era um tumulto em reviravolta dentro de si; olhava ao seu redor e via pessoas, mesas repletas, ouvia casos e acasos num fluxo ininterrupto. Era como se fosse uma fase de consolação para aceitar sua diversidade dentro daquele corpo quase esganado pela insensatez que brincava de ser a irmã mais nova – tudo tinha muita graça e andava num ritmo visceral de vida.


Lá longe avistou uma moça que parecia sua conhecida; seria aquela sua vizinha que parecia se esconder ou evitar os moradores no elevador? Não acreditara, pois somente uma vez trocaram olhares no rol do prédio, tocados talvez pela intrepidez dos olhares que não permitiam se afastar, apenas abandonar-se por entre as imaginações que desenhavam cenas eróticas da fuligem da rua que tomava o ambiente como a quentura do desejo que abrasava quem passasse por perto. Era assim que ele se fazia entender na sua divagação, mas ele insistiu no que acabara de questionar a si mesmo e se aproximou com seu tom dourado nos olhos, quase faiscando:


-Posso acompanhá-la pelo salão? Também gosto muito da arte contemporânea, fiz uns desenhos que posso te mostrar algum dia, desde que já estejam expostos.


Ela sorriu e continuou a conversa que, para ele, era só um álibi para a entrega:


-Vim a convite de uma amiga, mas vejo que ela está muito ocupada recebendo os convidados, não posso cobrar sua presença. Tenho um trabalho fotográfico exposto em sua galeria e somente mais tarde, quando chegarem todos os convidados, sairemos para respirar ar puro e tomarmos um café no bar que fica ao final do corredor.


Ele escutava a explicação artística da nova amiga, que até pouco tempo era sua vizinha desconhecida e não acreditava que, naquele momento, a arte os aproximou e os tomou pelos braços. Ela não tinha mais que autorizar sua companhia, somente se entregar mais tarde ao delicioso mormaço da sua bebida oferecida no quarto.


Foram andando e se entendendo no que conheciam de fotografia, pintura, escultura, desenhos; conversavam sobre temas diversos que inspiravam artistas todos os dias, até que quando viram já era hora de cada um tomar a decisão ir para algum lugar diferente, e não mais ficarem juntos por interseção dos gostos, mas ele logo se dispôs:


-Posso convidá-la para uma degustação de drinks mais tarde lá em casa? Chamei alguns amigos que fazem umas combinações surreais, eles brincam com as composições de álcool, temperos, frutas e seus toques mágicos, que não costumam revelar. Mas não tenha medo, eles fazem por pura brincadeira, e ainda ganham uma grana aos finais de semana, quando são convidados para alguma festa privada, lá onde o dinheiro ganha vida e paga por qualquer combinação diferente, é só dar um nome que soe atraente, místico,algo que venha dotado de aparências.


Ela logo se sentiu instigada por toda a história das bebidas e suas combinações inusitadas; não tinha o costume de aceitar convites de um quase estranho desde sua última aventura na casa de um velho colecionador de arte que desejava lhe promover, mas por que não se render por uma noite apenas? Logo decidiu:


-Está certo, pode me passar o endereço? (E riram da situação, pois eram vizinhos e nunca saíram juntos, nem eram amigos). Lá pelas nove e meia apareço no seu apartamento, combinado?


-Combinado! Uma pena que não nos aproximamos antes, mas não é bom pensar nisso, podemos fazer muito ainda.


Ela desconversou não quis prolongar algo que não passara em sua cabeça; seus momentos eram assim: todos pareciam pelo avesso, às pressas, vindos da novidade, da descoberta do momento. Tinha que se preparar para a efusão da noite, ela tramava bem todos os seus encontros secretos, das suas roupas ao mise-en-scène dos atos, todos milimetricamente armados para a conquista de mais alguns homens em sua vida.


                                 ***



sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Esculpidos pela vida




 
Imagem: A criação de Adão, Michelangelo
Sempre que passo em frente de alguma igreja, vasculho com o olhar o que tem lá dentro, como tudo está organizado e me vem uma sensação mística quase incontrolável, o desejo da redenção, seja pelo que for, o mínimo pecado imaginado pela gente, mas que está lá, acompanhando a vontade como um monstro irreconhecível, em destroços.


Tenho minhas crenças, meus dias em que acredito, e, outros, que nem sei como existir – às vezes mergulho em fantasias que crio, em devaneios poéticos, escrevo textos que alguém se identifica, ou não se dá por total satisfação; isto cada vez mais me dá um impulso para revolucionar algo dentro de mim; é uma espécie de vício olhar, perscrutar, observar ao longe, tentar sentir o que está exposto, até mesmo a pele encharcada do homem que pulsa junto ao coração.


Numa das minhas incursões pelas ruas de Porto Alegre, vi um homem chorando, conversando consigo dentro de uma igreja, a do Divino Espírito Santo, no bairro Bom Fim. Para muitos que olhasse para ele veria uma pessoa invadida pela loucura, veria seu momento mais fraco; ele perambulava dentro de si e não tinha explicação, buscava um encontro, acho que nem sabia com quem, talvez tivesse perdido algo, ou talvez até aquele momento nunca encontrou nada à sua altura. Ele estava sentado num banco lateral, e, acima da sua cabeça, estava narrada em detalhes minúsculos a Via Sacra de Cristo; era seu caminho entrecortado de pessoas que acreditaram e das que subjugaram sua força, como se ali dentro não existisse algum resquício de humano.


Em outras ocasiões vi pessoas em estados quase esquizofrênicos, como fala a literatura científica. Logo sinto um nó na garganta enlaçando a alma que trago – é que minha alma é mutável, dependendo da situação, ela se alastra pelo chão até encontrar seu outro pedaço. Tenho um recanto espiritual que não necessita de explicações nestes momentos, ele se encontra no lugar ideal, na hora certa, no ritmo perfeito. Sabe tirar de mim, com toda força, a essência da ação e o submundo da reação, independente das minhas escolhas religiosas, que não as tenho, não sigo religiões, mas me interesso pela simbologia, as histórias, o substrato, o Deus contido em todas elas, que se divide, abstrai, mas está, um só, no imaterial e material de todos os homens. 


Na Catedral de Notre-Dame de Paris vi uma mulher desesperada em frente à imagem de Maria, ela se parecia com as imagens góticas, vestida do maior sofrimento. Ela chorava, soluçava, se retorcia. Pude sentir o que havia nela, eram tantas sensações ali, que pude sofrer junto. Talvez eu tenha escrito algo e se perdeu com meu esquecimento, pois viver tudo aquilo era muito maior. Talvez ela chorasse pelo amor, pelos filhos, pelo abandono, pela vida que não viera e não pudera alcançar quando estava por perto. Ela estava tão dispersa que quase alcançava os pés com a cabeça em seus movimentos bruscos, elevava as mãos para o teto colorido por mãos seculares a espiá-la. Eram tantos encantos, tantas luzes esfumaçadas, que atingiam qualquer estado de palavras, era como um julgamento: de réus e de gárgulas.


Passei por muitas igrejas, em vários lugares, com a câmera fotográfica posando nas mãos, apontando para o momento certo que chamaria a atenção do meu olhar. Em Roma, visitei a Basílica di San Pietro e me extasiei com a Pietà, de Michelangelo; a Basílica di Santa Maria Maggiore, que está a mãe de Jesus com toda a sua pompa sagrada; A Igreja de San Pietro in Vincoli, dedicada a São Pedro e a São Paulo, onde o Moisés de Michelangelo enormemente brilha no mármore polido; na Igreja Santa Maria Del Popolo, existe uma inscrição no solo que diz Mors ad coelos ( a morte é o caminho para o céu), pensei realmente sobre isto. Consegui enxergar nessas igrejas muitas cenas humanas, sagradas, ainda vivas. 


Mas para escrever sobre homens, mulheres e suas vidas fatigadas preciso entrar em sintonia - com a pessoa, o ambiente; preciso cruzar minha história, atiçar minha liberdade para invadir espaços lacrados dentro das pessoas; umas são quase imperceptíveis; outras se mostram, revelam o dia mais obscuro que procuro. Sei que muitas delas se veem como restos que entraram em decomposição e deixaram suas formas nuas, brancas, quase esculpidas no mesmo mármore do Michelangelo. Eu as vejo como almas lapidadas pela vida.



                               ***

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Enlouquecidos, os sonhos existem

Imagem: Sérgio Pavanello

Falar de sonhos remete a muitas práticas primitivas ou modernas que invadem nossas mentes e necessitamos externá-las, fazê-las encontrar seu universo próprio moldado dentro de cada pessoa – quase sempre desconhecido ou não revelado.


Hoje, os sonhos são imensos, emaranhados, confusos, complexos... Eles têm a ver com tudo o que nos move! Não basta sonhar dentro do futuro; existe o momento presente que roga para que se faça em atos e que tudo adquira vida.


Parece que não nos importamos, não temos muita pressa, existe muito tempo pela frente, à espera de nossas vidas feitas ou desfeitas – é um tempo que vive à espreita, andando junto, quase tomando nossas mãos e enlaçando os dedos.


As mostras enlouquecidas do que o mundo contemporâneo promete roçam nossos narizes, como quem diz: “vem me buscar, custe o que custar!” Somos mexidos por algo que não se entende nem se observa completamente, do contrário, seria visto o caos interior; mas, desejamos, até o ínfimo espaço inacabado que não tem preço.


É uma questão de escolha de cada um. Temos nossos gostos, desgostos, utopias, distopias; guardamos livros que jamais serão lidos, como preciosidades em nossas mentes; cultuamos artistas de novelas, filmes, romances; fazemos roteiros de viagens transoceânicas; gostamos da boa gastronomia, daqueles pratos indicadas pelos melhores chefs nacionais e internacionais; vamos atrás do que se diz melhor, do assunto mais badalado, da notícia do momento; não podemos ficar para trás porque sabemos que não podemos voltar nenhum segundo, a menos que seja em divagações e sonhos perfeitos (que dificilmente acontecem como um déjà vu) - esta é a lei.


Às vezes nem temos o pudor, nem somos politicamente corretos – acho interessante quando me pego assim, fazendo algo fora dos padrões que conheço; às vezes descubro mundos fantásticos, invejáveis, sem ter de ferir ninguém, apenas vivê-los, antes que se desmanchem no ar.

                                    ***